terça-feira, 14 de maio de 2013


pé de botina   barco virado   bilha d’água

mau conselho   olhos de jia   fio de força

pano na boca   louça branca   crucificação

lua estreita                  sopro gelado

flores no pó   riso nervoso   cor de rocha

boneca torta                  malas feitas

mão de pilão

banco de pau   flor sozinha   metralhadora

verdade crua

ovo no ninho                  o pai doente

quarta feira   pele de onça   cinco moedas

maré vazante                  música tosca

a felicidade   nada de novo   conta virada

malha de aço   outra cidade   palavra cega

dias rápidos   sopa viscosa   tudo vaidade

sexta-feira, 5 de abril de 2013

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

terça-feira, 9 de outubro de 2012


DE ESPÍRITOS E PORCOS

Vamos então falar de Memórias Póstumas de Brás Cubas, eu disse, a Kayane levantou e foi saindo, perguntei qual o problema, esse livro, ela disse, é aquela coisa espírita, sicogafria, segurei o veneno e voltei à sala, um terço cochilava; a Noelle perguntou agora prof?, eu fiz que sim, ela pôs o celular para gravar: a narração em primeira pessoa...
Na sala dos professores o Marcelo de bio louvou-me a persistência, hoje eu dei evolução, amanhã dou design, paciência, vocês estão adiantados, a Elza disse, ainda estou tentando dar D. Pedro sem Marquesa, Monarquistas?, chutei, não, as Mães Contra o Concubinato; eu propus ir ver Di Cavalcanti, o Fábio, foi vetado, que surpresa, o Marcelo olhando o teto, mas talvez chova à noite e a colônia seja interditada; fosse ou não, troquei com a Rita a primeira de amanhã, tinha esquecido, precisava de uma hora com a Cida CP.
Na terça quando cheguei fazia sol, a Kayane desfilava de short e bustiê, com um cartaz a canetão contra ‘pregassão espirita’, quase deu saudade de quando sabiam escrever demoníaco e lascívia – tratava-se então de abolir Jorge, como o tempo passa; disse à Sara que podia assistir à aula hoje, a Rita vai dar gramática, ela ficou com a ficha de recusa na mão enquanto procurava na mochila um envelope, tentou que eu pegasse tudo junto, não caí, levei só os formulários do controle parental.
A Cida ia lendo fichas de uma pilha, vez por outra a mão procurando o maço de cigarros pela mesa: Grande Sertão Veredas, As Famílias Contra o Travestismo; Inocência, Frente de Combate ao Abuso por Médicos, os nomes estão cada vez maiores, tentamos rir, tomamos mais café; Navio Negreiro, todo?, Sindicato da Navegação Comercial; Vidas Secas, os assassinatos de animais, estava demorando; Morte e Vida Severina, enterro irregular, Federação dos Agentes Funerários; Hamlet, tá misturado, lê, violação de sepultura, a mesma Federação.
Essa é engraçada, mostrou duas clipadas, as duas Macunaíma, as duas a feijoada, Ação Contra a Obesidade e Federação dos Produtores de Feijão, rimos, tomamos mais café; mais Machado, o quê agora?, O Alienista, Congresso de Psiquiatria; Canaã, nesse nem eu pensei, a Associação de Suinocultores do Espírito Santo pensou, santo deus; Lobato, sobrou alguma coisa?, Elias Turco, mas não tem Elias Turco sem Nastácia, tem?, não lembramos.
Sem Nastácia, sem Saci, sem Caçadas, sem pirlimpimpim, sem a Chave do Tamanho, quem?, alguma coisa das Pessoas Pequenas, Gulliver, saudade, divagamos indo para a área atrás da copa, fumar e olhar um pouco o mato crescer.

(Provocado pelo conto Much Ado For Nothing, de Connie Willies)



segunda-feira, 30 de julho de 2012


NA BOA

Sei que não sou bonita, a natureza se empenhou em que não me notassem. Não pareço muito esperta, não sei truques para impressionar, só para ser deixada em paz. Cuido de sobreviver, e não são poucos os que se opõem; prontos a se alimentarem da minha ruina, de todos os lados me atacam e a mim, ser sem armas, resta esconder-me, em mim mesma, primeiro, depois em meio à massa que me dá sustento. Aos atacantes viventes juntam-se os ditos inanimados que, no entanto, teimam em mover-se, muitas vezes em escala catastrófica. Também os excessos do clima me ameaçam: alagamentos que me põem em fuga a todo custo acima, deixando cama e mesa; frio que endurece a terra, enrijece o corpo e retarda as maturações; sol causticante na pedra, do qual ao menos posso abrigar-me ao pé de uma porta, e esperar que não se abra ela e alguém diga grosserias como: ai, que nojo, uma lesma.

segunda-feira, 2 de julho de 2012


MARGINAL VIVO OU MORTO


Vontade de assar numa fogueira de película vencida a Ministra Holanda quando lemos sua nota sobre Carlão Reichenbach, para ela tachado de cineasta marginal só porque trabalhou na Boca, até que vemos na tevê Helena Ignez achar injusto o mesmo marginal em relação a Sganzerla, apesar do Bandido e da frase do Oiticica – a Boca ela não cita.

Não é exigir de Helena que se lembre de beber na mesa ao lado da de Jean Garret, não é querer que a Ministra tenha lido Jairo, é só pensar que marginal era esse, era marginal a quê, em quê não se enquadrava, por que o produziu Galante e não Barretos, Farias?

Porque era ditadura, ordem era opressão, marginal era herói – pobre sociologice. A margem, hoje, é outra, Luz e Candeias morreram, a Boca é Cracolândia, filme fora da corrente é alternativo, é não comercial, independente, o cacete, marginal são os nóias.

A posliberdade condena (excuzê mua, Sartre) todos a estarem dentro, fora é o caos, o Não, reino de exus caralhudos. Ser incluído é preciso, viver não é, crianças, a rua é para os ratos, vá ser feliz no face, infeliz também pode, não pode é não ter tribo, tem que assumir, ser público – público, eu disse, não povo.

sexta-feira, 15 de junho de 2012


SE ACASO

A grade não estaria trancada. Diante dela uma escadaria de madeira azul descascada, uns vinte degraus, mas não seria por ela, um portãozinho com igual pintura abriria a um patamar de ladrilhos, um corredor e um pátio. Haveria um tanque de lavar, banheiros, corredor, janela, corredor, seria este à esquerda. Teria portas nos lados, chão cimentado úmido e nenhuma lâmpada acesa; no final se abriria outro pátio, menor e cego exceto por uma escada íngreme de corrimão muito alto, acesso a um quadrado com muretas com o Coração em frente, e janelas e atrás, à direita, uma porta grande e um corredor. Estaria um pouco escuro mesmo de dia, haveria vitrines com coisas antigas e, dados alguns passos, uma escada em caracol que subiria e, do meio para cima, pareceria mover-se. No entanto, não se moveria até o fim, este sendo uma salinha atulhada com uma porta baixa, a qual daria a um vestíbulo com uma cadeira em um canto e a porta da Cabine de Projeção, uma outra porta e mais uma escada, essa felizmente para baixo. Por trás das cortinas estaria a sala de projeção, vazia, e sob a tela branca a saída teria nos dois lados banheiros; qualquer um deles teria uma porta para fora e, indo por uma rua de paralelepípedos, casas à esquerda, capim e córrego à direita, findaria a rua em uma vista infinita da cidade. Qualquer dos caminhos descendo pela praça levaria a um pavilhão de concreto e vidro, desocupado, e uma rampa para baixo, com paredes de tijolos transparentes e, atravessada com cuidado a avenida mal iluminada e evitados os porcos no canteiro, um pórtico entre dois grandes nus de mármore negro. O guichê de Informações de pouco serviria. O correto seria cruzar a passarela bem em frente e, na outra ala, encontrar a praça de alimentação; um enorme banner meio que esconderia umas catracas. Pelos buracos nas paredes de madeira vazariam hálitos, uma placa amarela gritaria PARE. No estacionamento estariam poucos carros e o elevador de carga saltaria à vista, e barulentamente subiria e se abriria a um amplo living, cozinha americana, área de serviço conjugada à laje de cobertura. Entre várias chaminés, uma porta de ferro e vidro sujo, um batente perigoso, um salão decorado com balões azuis e brancos, e, por trás das cabines de tradução simultânea, depois do bebedouro se revelaria aberto um dos painéis de madeirite branco-sujo, e a copa anexa daria para um túnel com tubulações. A passagem para pedestres se estreitaria e, aqui e ali, faltariam tampas aos bueiros; o túnel seria, agora, bem iluminado e para automóveis, ainda que não passasse, no momento, nenhum. Ao lado da saída, um caminho feito a pés no capinzal, um caminho poeirento cruzaria os trilhos enferrujados, e estes para o lado errado não dariam em nada, mas para o outro logo encontrariam a estação velha. Na sala 1 do anexo morcegos protestariam, e por trás da estante maior ficariam a carceragem e o mezanino, por entre cujas mesinhas de falso mármore e cadeiras de metal haveria uma passagem apertada para nada menos que as portas de mogno e vidro bizotê. Além delas um cachorro latiria atrás de um portão, os corredores avarandados circundariam a chuva e, após muitas batidas supostamente discretas na porta à direita dos caixotes, de trás da janela vizinha diriam que ela não mora mais aqui.