terça-feira, 15 de abril de 2014


A MERDÍADA















A Midas, Rei de Creta,
os Deuses, sabem todos,
concederam o dom
de transformar em ouro
tudo que tocasse;
sabem poucos, no entanto,
que Midas tinha um gêmeo,
por nome Merdas.

Eram em tudo iguais
exceto pelo trato
do tesouro que herdaram;
Midas acumulava,
Merdas tudo detonava
em bigas italianas
e outras drogas.

Midas, se sabe, foi
aos Deuses e tal e
ficou mais, muito mais rico.
Merdas torrou sua herança
e se atolou na banca,
Midas comprou a dívida
e, como era da Lei,
fez Merdas seu escravo.

Quando tudo à volta
Midas tornara ouro
e apontava o dedo
para o irmão,
veio-lhe ideia melhor:
que fosse Merdas aos Deuses
com um pedido e fosse
vestido como o Rei.

Aos Deuses disse Midas
(na verdade, Merdas):
- Compreendi vossa lição,
tanta riqueza sufoca,
rogo, misericordiosos,
concedei transformar,
ao toque desta mão,
meu ouro em fezes.

Impressionados ante
tanto desprendimento,
deram os Deuses a Midas
(na verdade, a Merdas)
o implorado;
e, porque ouro é ouro,
valendo para o seu
e todo que alcançasse.

A Midas devolvendo
coroa e manto, Merdas
barbeou-se e saiu
pelos estados vizinhos
a procurar emprego
na guarda de tesouros.

O leitor já viu tudo,
o ouro a seu cuidado
Merdas tornava em fezes.
Midas, então, vizinho
solidário, comprava
tudo a preço de fezes,
levava para casa
e transformava em ouro.

O mundo é pequeno e
cedo ou tarde a fama
de Merdas se espalhou
e o corriam de toda parte.
Voltou aos Deuses, que
(sabem lá eles por que)
lhe concederam o dom
de trocar de cara.

Nepotismo é grego,
os dons passaram aos filhos,
aos netos e tal.
Os descendentes de Midas
são poucos,
os de Merdas muitos e,
ultimamente,
vestem bico e penas.

sexta-feira, 15 de novembro de 2013

PRINCESA E BRUXA
(pro Mario)


Um castelo na colina, uma estrada, dia.
Passa um príncipe.
Súbita vontade o faz apear e aliviar-se, nisso dando com uma lagartixa no muro, que lhe diz:
- Nesse castelo uma bruxa mantém prisioneira uma princesa.
O portão tem uma grossa corrente, o castelo entre árvores, acima.
O tempo não tá fácil para príncipes, vai bem uma princesa, mais ainda um castelo; pula logo.
Não é preciso contar quantas pequenas criaturas verdes ele tem de matar, para não lhe subirem pelas pernas e sugarem as forças.
Não há por que registrar que corvos lhe aparecem na frente e,
se não os derrubar, sugarão por cinco dos verdinhos.
Nem pensar em descrever as coisas que surgem do nada, capazes de chupá-lo até o vazio, ou citar as borboletas com moedas e os esquilos que trazem mertiolate.
Atrás de um cão com três maus hálitos está a porta, enorme e grossa e trancada, que, a um coice do príncipe frustrado, se abre toda.
Há, claro, um salão escuro e corredores e escadas, e não se fale de quantas teias pegajosas e tapetes escondendo buracos hediondos e portas para...
Duas mulheres, cada qual mais linda, num espelho mágico uma cara verde diz:
- Só há uma princesa; se escolheres a bruxa, os gatos vão jantar a parte mais importante do teu corpo. A porta da rua está aberta.
Foi-se o príncipe, olham o espelho, ele diz:
- A princesa ganhou outra vez; ele não achou que se tratasse de seu cérebro.

Desliga com os olhos o espelho, se dão um selinho e, de mãos dadas, vão andando para o quarto.

sábado, 12 de outubro de 2013

terça-feira, 14 de maio de 2013


pé de botina   barco virado   bilha d’água

mau conselho   olhos de jia   fio de força

pano na boca   louça branca   crucificação

lua estreita                  sopro gelado

flores no pó   riso nervoso   cor de rocha

boneca torta                  malas feitas

mão de pilão

banco de pau   flor sozinha   metralhadora

verdade crua

ovo no ninho                  o pai doente

quarta feira   pele de onça   cinco moedas

maré vazante                  música tosca

a felicidade   nada de novo   conta virada

malha de aço   outra cidade   palavra cega

dias rápidos   sopa viscosa   tudo vaidade

sexta-feira, 5 de abril de 2013

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

terça-feira, 9 de outubro de 2012


DE ESPÍRITOS E PORCOS

Vamos então falar de Memórias Póstumas de Brás Cubas, eu disse, a Kayane levantou e foi saindo, perguntei qual o problema, esse livro, ela disse, é aquela coisa espírita, sicogafria, segurei o veneno e voltei à sala, um terço cochilava; a Noelle perguntou agora prof?, eu fiz que sim, ela pôs o celular para gravar: a narração em primeira pessoa...
Na sala dos professores o Marcelo de bio louvou-me a persistência, hoje eu dei evolução, amanhã dou design, paciência, vocês estão adiantados, a Elza disse, ainda estou tentando dar D. Pedro sem Marquesa, Monarquistas?, chutei, não, as Mães Contra o Concubinato; eu propus ir ver Di Cavalcanti, o Fábio, foi vetado, que surpresa, o Marcelo olhando o teto, mas talvez chova à noite e a colônia seja interditada; fosse ou não, troquei com a Rita a primeira de amanhã, tinha esquecido, precisava de uma hora com a Cida CP.
Na terça quando cheguei fazia sol, a Kayane desfilava de short e bustiê, com um cartaz a canetão contra ‘pregassão espirita’, quase deu saudade de quando sabiam escrever demoníaco e lascívia – tratava-se então de abolir Jorge, como o tempo passa; disse à Sara que podia assistir à aula hoje, a Rita vai dar gramática, ela ficou com a ficha de recusa na mão enquanto procurava na mochila um envelope, tentou que eu pegasse tudo junto, não caí, levei só os formulários do controle parental.
A Cida ia lendo fichas de uma pilha, vez por outra a mão procurando o maço de cigarros pela mesa: Grande Sertão Veredas, As Famílias Contra o Travestismo; Inocência, Frente de Combate ao Abuso por Médicos, os nomes estão cada vez maiores, tentamos rir, tomamos mais café; Navio Negreiro, todo?, Sindicato da Navegação Comercial; Vidas Secas, os assassinatos de animais, estava demorando; Morte e Vida Severina, enterro irregular, Federação dos Agentes Funerários; Hamlet, tá misturado, lê, violação de sepultura, a mesma Federação.
Essa é engraçada, mostrou duas clipadas, as duas Macunaíma, as duas a feijoada, Ação Contra a Obesidade e Federação dos Produtores de Feijão, rimos, tomamos mais café; mais Machado, o quê agora?, O Alienista, Congresso de Psiquiatria; Canaã, nesse nem eu pensei, a Associação de Suinocultores do Espírito Santo pensou, santo deus; Lobato, sobrou alguma coisa?, Elias Turco, mas não tem Elias Turco sem Nastácia, tem?, não lembramos.
Sem Nastácia, sem Saci, sem Caçadas, sem pirlimpimpim, sem a Chave do Tamanho, quem?, alguma coisa das Pessoas Pequenas, Gulliver, saudade, divagamos indo para a área atrás da copa, fumar e olhar um pouco o mato crescer.

(Provocado pelo conto Much Ado For Nothing, de Connie Willies)